Mulher diz ter sido obrigada a casar com homem 43 anos mais velho que ela no Acre: 'trocada por motor'

Publicado por: Ipu Online em | 28.11.17 | 0 comentários


A história da doméstica Maria Angelita, de 36 anos, parece ter saído de um filme. Aos 15 anos, ela afirma ter sido trocada por um motor de barco e obrigada a casar com um homem 43 anos mais velho, em Porto Walter, cidade que fica no interior do Acre. Com esse homem, ela viveu por 18 anos e conta que as agressões eram constantes.

Foi numa palestra sobre violência doméstica, em Cruzeiro do Sul, que o G1 encontrou com Angelita.
Angelita era órfã de pai e mãe e viu sua vida virar um pesadelo quando foi passar uns dias com os tios em Porto Walter.

"Fui criada com meu avô, quando eu tinha 14 anos fui passar uns dias com a irmã do meu pai. Meu tio era um homem muito cruel, não deixava a gente sair pra nenhum lugar. Ele fez um negócio com um cara, eu tipo fui vendida. No final de tudo, ele ganhou a parte de um motor de barco. Nunca consegui esquecer tudo isso”, diz.

Na época, o homem tinha 58 anos. “Eu chorei todos os dias por 18 anos, eu nunca tinha tido um namorado, nunca, e fui obrigada a casar. Ele foi a pior coisa que poderia ter me acontecido”, desabafa.

Da relação com o ex-companheiro, a doméstica teve quatro filhos, de 11, 15, 17 e 19 anos. “Ele me batia na frente deles e depois começou a bater neles, eu queria ir embora mas não ia por causa dos meus filhos”, justifica.

Angelita relembra a crueldade do ex-companheiro. “Ele era muito cruel, tinha muito ciúme. Ele batia e eu reagia. Uma vez ele bateu no meu filho e quebrou a costela dele, ia quebrando o braço. Era faca, pau, tudo que tivesse na mão ele jogava nos meus filhos. Matou um cachorro e jogou nos meus pés”, relata.

Quando o filho mais velho completou 16 anos, Angelita viu a oportunidade de abandonar a vida no seringal Nova Vida, localidade isolada que fica a um dia de viagem de Cruzeiro do Sul.

“Eu tinha medo dos meus filhos passarem fome. Não tem dor maior do que você não saber o que daria pros seus filhos comerem, mas eu cansei dele”, conta.

'Não aguentei mais', diz
Foi em 2014 que Angelita tomou coragem e foi embora com os filhos para Cruzeiro do Sul. “Conversei com a minha tia e ela disse que ia me ajudar. Passei minha vida toda sem amor e sem carinho, trancada dentro de uma casa, vivendo com um homem ruim. Ele é uma pessoa ruim”, diz.

Os filhos deram o impulso que faltava para que ela deixasse a vida ao lado do agressor. "Eu cansei, não aguentei mais. Meus filhos foram crescendo e a violência ia aumentando. Meus filhos já queriam enfrentar ele. Ele pensava que eu não ia ter coragem de falar a minha verdade. Ele dizia que se eu saísse ia me denunciar e a polícia ia me obrigar a voltar”, diz.

Angelita trabalha como doméstica em Cruzeiro do Sul e frequenta o Centro Especializado em Atendimento à Mulher, onde recebe todo o apoio.

A coordenadora da unidade, Rosalina Souza, revela que nos primeiros encontros Angelita não conseguia nem encarar as pessoas. “Ela começou a fazer artesanato terapêutico, foi quando descobrimos que ela teve toda a vida comprometida com a violência que viveu”, conta a coordenadora.

Rosalina encoraja outras mulheres a fazerem o mesmo que Angelita. “Eu gostaria que as mulheres pudessem ver que elas não estão sozinhas, sabe? Elas podem pedir ajuda. Se vocês acham que estão fazendo pelos filhos estão enganadas, eles precisam das mães vivas e felizes”, finaliza.

G1

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