Uma pesquisadora brasileira ganhou o prêmio de melhor tese de biologia do Reino Unido

Por Ipu Online — publicado | 10.4.18 | 0 comentários

Unir as paixões pela pesquisa e pelas espécies de plantas do cerrado rendeu à bióloga brasiliense Thaís Vasconcelos, de 29 anos, o prêmio de “melhor tese de doutorado em biologia do Reino Unido”. A medalha John C. Marsden foi concedida há duas semanas pela Linnean Society de Londres, uma das mais antigas e renomadas instituições do país inglês.

Thaís com seu objeto de estudo. (Foto: Reprodução)
Em 1858, o naturalista britânico Charles Darwin apresentou a teoria da evolução – base da “seleção natural” – à mesma sociedade de cientistas. A premiação é equivalente à concedida anualmente, no Brasil, pela Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior).

Após quatro anos de estudos, a pesquisadora formada na UnB (Universidade de Brasília) mostrou como evoluem as mirtáceas – uma família de plantas encontrada, principalmente, nos biomas brasileiros. Apesar do nome pouco comum, as espécies deste grupo são velhas conhecidas dos brasilienses: cagaitas, goiabeiras e eucaliptos, por exemplo.

“Mirtáceas são a base de vários ecossistemas. As flores produzem pólen para as abelhas, e os frutos carnosos sustentam a fauna da Mata Atlântica, do Cerrado e da Amazônia.”

Biologia evolutiva
Como inovação na ciência, a tese de doutorado comprovou que, diferente do que se pensava até então, essa família de plantas “mudou, ao longo do tempo, menos do que o esperado”.

“Em todos os escossistemas da América do Sul, essas plantas são diversas e muito importantes na ecologia desses biomas. Vários animais interagem com elas, por isso esperava-se que os formatos da flores mudassem, mas isso não acontece tanto”, explica.

Na prática, Thaís conta que o estudo das plantas ajudou a desenvolver conceitos da biologia evolutiva – uma subdivisão da área que estuda a origem e a descendência das espécies, assim como suas mudanças ao longo do tempo.

Antes das Américas
Uma outra conclusão da pesquisa tem a ver com um fenômeno ocorrido nos primeiros 500 milhões de anos da origem da Terra: a formação do supercontinente do sul Gondwana. De acordo com a hipótese levantada, as mirtáceas chegaram às Américas quando os continentes ainda estavam unidos.

“Pegamos espécies de vários países da América do Sul, América Central e ilhas do Pacífico. Coletamos as amostras das plantas, sequenciamos e, comparando o material genético delas, pudemos reconstruir o parentesco e história evolutiva”, detalha a pesquisadora.

Dificuldades
Para Thaís, o prêmio serve como incentivo à pesquisa e à ciência no Brasil, considerada por ela “ainda com pouco investimento”. A bióloga destaca que, apesar de viverem em meio ao cerrado do Distrito Federal, por exemplo, as espécies desse bioma ainda são pouco exploradas.

Outro ponto crítico, segundo ela, é a dificuldade em conseguir investimentos financeiros. O doutorado concluído em Londres por Thaís foi financiado pelo programa do governo federal Ciências Sem Fronteiras, em 2013.

Desde julho de 2016, em meio à crise econômica, as instituições de ensino federais e estaduais reduziram em até 99% o número de alunos enviados ao exterior até o ano passado.

“A gente vê que a maioria dos [prêmios] Nobel é de lá [Inglaterra], que os cientistas de destaque são de lá. Não é porque nós não temos capacidade, mas porque lá investem mais em ciência”, avalia.

“É uma pena. Nós temos a biodiversidade e um potencial grande, mas não temos incentivo.”

Jornal O Sul

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