Estudante brasileira de medicina é morta a tiros na Nicarágua

Por Ipu Online — publicado | 24.9.18 | 0 comentários

Ativistas estudantis dizem que disparos partiram de paramilitares e polícia atribui tiros a seguranças privados; Itamaraty pede esclarecimentos sobre circunstâncias da morte

Reprodução/Arquivo Pessoal
A estudante brasileira de Medicina Raynéia Gabrielle Lima, de 30 anos, foi morta a tiros na noite de segunda-feira em Manágua, na Nicarágua, confirmou o Itamaraty. O país vive uma onda de violência desencadeada pela repressão do governo do presidente Daniel Ortega, que tenta sufocar protestos que desde abril exigem sua saída do poder. Ela foi morta quando deixou o plantão no Hospital da Polícia Carlos Roberto Huembes e voltava para casa, em um bairro próximo à Universidade Nacional Autônoma da Nicarágua (Unan), local que virou alvo das forças de repressão e onde ocorreram choques entre manifestantes e forças policiais e paramilitares leais ao governo.

Raynéia, pernambucana que estudava na Universidade Americana de Manágua (UAM) desde 2013, teve seu carro foi metralhado na área residencial de Lomas de Monserrat, supostamente, segundo testemunhas citadas pela imprensa local e colegas da estudante, por um grupo paramilitar. A Polícia Nacional nicaraguense divulgou uma nota em que afirma que o disparo partiu de seguranças privados, "em circunstâncias ainda não determinadas", e que vai investigar o caso.

Depois de ser baleada, por volta das 22h50 no horário local, a estudante foi encaminhada ao o Hospital Militar Alejandro Dávila em estado crítico, com perfurações no fígado e no coração. Ela não resistiu a uma parada cardíaca durante uma intervenção cirúrgica e morreu.

Segundo o pai da estudante, uma amiga de Raynéia ligou para a sua família no Brasil e contou que ela fora atingida por dois tiros na volta para casa depois de mais um dia de trabalho. Ridevando Lima, de 57 anos, disse que a filha estava em um carro e o namorado dirigia outro atrás.


Após saber da notícia da sua morte, a mãe da jovem ficou em estado de choque, segundo Ridevando, e não está em condições de dar entrevista. A rotina da vítima envolvia o trabalho no hospital, os estudos na faculdade e aulas de ioga. Ela não participava dos protestos que desde abril tomaram a Nicarágua, segundo seus amigos e parentes.

— O namorado a socorreu, mas no hospital ela não resistiu — afirmou. — Raynéia não tinha envolvimento com as manifestações no país, porque é estrangeira, não tinha razões para participar dos protestos.

Brasileira Raynéia Lima, de 30 anos, era uma das melhores estudantes de Medicina da sua turma - Reprodução
GOVERNO BRASILEIRO PEDE ESCLARECIMENTOS
A conselheira da embaixada brasileira em Manágua, Tatiana Barbosa, informou que o órgão diplomático fora alertado por testemunhas da morte de Raynéia. Em nota, o Itamaraty informou que pediu ao governo da Nicarágua esclarecimentos sobre as circunstâncias da morte de Raynéia, e cobrou de Manágua que identifique os responsáveis pelo crime:

"O governo brasileiro recebeu com profunda indignação e condena a trágica morte ontem, 23 de julho, da cidadã brasileira Raynéia Gabrielle Lima, estudante de Medicina na Universidade Americana em Manágua, atingida por disparos em circunstâncias sobre as quais está buscando esclarecimentos junto ao governo nicaraguense", disse o comunicado. "Diante do ocorrido, o governo brasileiro torna a condenar o aprofundamento da repressão, o uso desproporcional e letal da força e o emprego de grupos paramilitares em operações coordenadas pelas equipes de segurança.(...)O governo brasileiro exorta as autoridades nicaraguenses a envidarem todos os esforços necessários para identificar e punir os responsáveis pelo ato criminoso".

Por sua vez, a presidente do Centro Nicaraguense de Direitos Humanos (Cenidh), Vilma Núñez, declarou que a estudante "foi alvejada sem nenhuma razão" e disse que a organização vai realizar investigações sobre o incidente.

A estudante, que completaria 31 anos no próximo dia 23, morava sozinha no país da América Central e já expressava a sua família que sentia vontade de voltar ao Brasil. Ela vivia no país havia seis anos, tendo inicialmente chegado à Nicarágua com o seu então marido, que retornou posteriormente ao Brasil quando o casal se divorciou.

Em nota, a UAM lamentou a morte da estudante, afirmando que o episódio "nos enche de dor porque é consequência das difíceis condições que a Nicarágua vive", enviando condolências à famílias de Raynéia. O reitor da universidade, Ernesto Medina, que participou ao lado da oposição da mesa de diálogo com o governo durante a onda de protestos, disse em entrevista ao canal 12 da TV local:

— A morte desta menina é um sinal do que está acontecendo na Nicarágua. Contradiz o que diz Ortega, de que tudo está normal, mas é uma paz de mentira. Há paramilitares por todos os lados.

Amigos da jovem publicaram mensagens em sua homenagem nas redes sociais, lamentando a sua morte. "As balas não destroem sonhos, estes sempre viverão", escreveu um deles. Uma amiga de Raynéia, por sua vez, disse: "Você amava a Nicarágua como se fosse o seu país. Veio com o sonho de ser médica. E agora isso. Vou sentir a sua falta, amiga".

REPRESSÃO EM UNIVERSIDADES
A onda de protestos iniciada em abril, inicialmente deflagrada por uma reforma da Previdência, se transformou numa rebelião contra o governo de Ortega e já deixou pelo menos 290 mortos. Além da repressão da força policial, grupos paramilitares têm participado de ações contra os manifestantes. Ainda que o presidente negue ligação com tais grupos, os oposicionistas afirmam que são homens armados a serviço da Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN), partido de Ortega.

No dia 23 de junho, forças do governo lançaram uma ofensiva contra manifestantes refugiados na Unan. No dia 30, milhares de nicaraguenses marcharam para exigir a renúncia do presidente. Mas Ortega, em 7 de julho, descartou a antecipação das eleições presidenciais, proposta na mesa de diálogo, e chamou os opositores de "golpistas".

Em 13 de julho, o país foi paralisado mais uma vez por uma greve geral, depois de uma enorme marcha pedindo a saída de Ortega. Estudantes da Unan foram reprimidos e se refugiaram numa igreja próxima. Dois jovens morreram após 20 horas de cerco armado à igreja.

O Globo





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