Doença de Chagas pode afetar intestino e uma vida inteira

Por redação Ipu Online | publicado | 18.12.18 | 0 comentários

Em até 15% das manifestações clínicas, o parasito se instala no cólon do intestino grosso. Os medicamentos para as crises não são oferecidos na rede pública, e a pobreza que leva à doença se estende para a piora da dor

Maria Lúcia, 66 anos, descobriu a doença há quatro anos. O diagnóstico apontou a presença do parasita no intestino, situação não letal, que ocorre em 15% dos casos. FOTO: MELQUÍADES JÚNIOR
Quando tem fome, o barbeiro escolhe a presa para se alimentar. Repousa em qualquer parte do corpo que dorme. Injeta duas antenas. Numa, sua saliva anestesia o local; noutra, se abastece de sangue por até 30 minutos de fartura. Como se completasse um ciclo digestivo, defeca e vai embora. O efeito anestésico passa, a vítima, geralmente dormindo, coça a região e o protozoário, antes nas fezes, passa ao sangue.

No tempo de um sonho, tem início o pesadelo para dona Lúcia, entre tantos. Quando tem fome, não se responde. A vontade de comer se mistura à sensação de entrar num beco sem saída. A comida não quer transformar. E é reveladora de outra face desse mal negligenciado: não é só "doença do coração".

"A gente nunca espera. Já sabia o que era a doença, só que eu não esperava". Depois de 'não esperar', receber a notícia de soropositividade foi um desesperar. "Eu tinha visto a situação dos três vizinhos meus, todos irmãos, que tinham morrido disso. Aí, pronto. Pensei logo que não tenho mais muitos dias de vida. A gente fica num abatimento".

Limoeiro do Norte, no Vale do Jaguaribe, é uma região endêmica para a doença há mais de uma década, e ao contrário de isso ser suficiente para um trabalho, ao mesmo tempo, de prevenção e tratamento, as pessoas ainda se descobrem chagásicas por acidente. Porque estar infectado não é o mesmo que estar doente. As manifestações podem demorar 30 anos, ou uma vida, para surgir.

Mesmo que nos últimos 15 anos várias pessoas de sua comunidade Arraial tenham morrido com esta causa, a infestação toma ares de caso isolado. Predomina uma rede de descuido.

No dia que não consegue esquecer, voltava do centro da cidade com o esposo.

- João, 'vambora' passar antes no postinho, ver se já tem remédio.

Diagnosticados com hipertensão arterial, ao menos uma vez por mês pegam os medicamentos que chegam do Sistema Único de Saúde (SUS) para a Unidade Básica da comunidade. Lá, a funcionária do local teve a objetividade de uma picada:

- Dona Lúcia, precisava mesmo falar com a senhora.

- Diga, mulher.

- Porque chegou o resultado dos exames de Chagas. O resultado deu. A senhora está com doença de Chagas.

Simplesmente. Era só uma ida para pegar remédio da pressão, mas voltou com "a senhora está com doença de Chagas". Faltou chão. Não sabia se segurava as pernas ou as lágrimas. Deixou para desabar em casa. Só lembrava dos vizinhos, três irmãos, que anos antes receberam o diagnóstico e não estavam mais ali. Os três se tinham ido. Três.

Quando as lágrimas secam, reinventa a esperança. E lembra dos tantos ainda vivos, embora acometidos. Izabel, cinco casas adiante, tem o coração crescido, mas parece bem. Raimunda, mais à frente, nem tanto, mas já são mais de 80 anos. O Trypanossoma cruzi entra na rede sanguínea e ataca células do Sistema Fagocitário Mononuclear (SFM), originárias da medula óssea e que se espalham no sangue. De cara com o protozoário, é tomada de assalto, invadida. Lá dentro, o parasita faz sucessivas divisões até engolir de dentro para fora toda a célula, antes de partir para as próximas.

Viver muito
Na primeira visita à Faculdade de Farmácia, em Fortaleza, para receber os medicamentos, ouviu que pode viver muito. "Ter Chagas não é dizer que vai morrer disso", explicou a professora dra. Fátima Oliveira, que traz do cotidiano no laboratório, com tantos e diferentes casos que chegam (565 pacientes são monitorados), uma verdade para além da literatura médica: "os chagásicos podem viver muito". Sendo muito até passar dos oitenta.

A doença pode se apresentar de três formas: na indeterminada, em que o paciente está infectado pelo trypanossoma cruzi, mas não apresenta sintomas. Em até 40% desses casos predominantes se evoluem para duas formas sintomáticas: a cardíaca, com destruição de fibras musculares; e a gastrointestinal, tendo entre os sintomas a dilatação exagerada do esôfago ou do intestino grosso. Esta última acometeu dona Lúcia. O benzonidazol, único medicamento que poderia tomar, tenta evitar que o parasito destrua células boas. Serve principalmente para início de tratamento em pacientes assintomáticos.

Dona Lúcia tomou a medicação, mas não viajou para todas as consultas por esse motivo: ser consultada é uma viagem: ao menos 200 quilômetros separam médico da paciente. Nem sempre tem carro da Prefeitura disponível para deixar e buscar no Hospital das Clínicas. E os exames não obedecem o tempo das horas de o motorista voltar a Limoeiro do Norte. Se a doença chega a ser indolor quando está no sangue ou mesmo no coração, embora nesta possa se tornar fatal, quando afeta o intestino dificilmente causará morte, mas tem chances de gerar sofrimento.

"Eu quase não tomo medicação porque é muito cara. Mas a doutora passou três remédios pra mim. Eu só defeco se tomar medicação". Mesmo sendo uma doença incurável, e ela uma idosa (64 anos), não há distribuição gratuita do medicamento correlacionado a Chagas. Sem a química, passa até 20 dias para liberar fezes. A palavra "crônica", que tipifica a doença, chega na sua pior forma nos dias de "não fazer".

"Eu tenho crises de estômago e intestino. Muita dor. Meus filhos levam pro hospital. Quando saio, acho que não volto viva. Depois, fico quase sem comer, porque o estômago não aceita". Quando descobriu Chagas, o medo era morrer, não sofrer. Várias vezes foi para além das consultas médicas. Fez nove cirurgias: a primeira, de apendicite, com 19 anos de idade e 25 dias de casada; depois, retirada de mioma no útero, em seguida extrair o próprio útero, vesícula, e promete que a partir de agora não conta mais, "senão, vem".

Nos dias sem crise, ocorre de 'brincar' que tem uma doença que não vê nem sente. "Sou ansiosa, nervosa, mas não perco a fé, sabe? Ergo a cabeça e sigo em frente".

Fé no divino
Cuida de si, do esposo, e se deixa aos cuidados da fé no "divino Espírito Santo" e na "Virgem da Conceição". "Às vezes, faço um pedido e passa. Peço pra me livrar daquilo, da dor. Sou atendida, graças a Deus. Não todas as vezes. Você tem que pedir muito pra poder alcançar uma graça. É de que eu me valho: Jesus Cristo, Divino Espírito Santo e a Virgem Maria".

Lúcia nunca morou em casa de taipa, mas de tijolo sem reboco. Muitas residências de alvenaria na sua comunidade Arraial foram reformadas ou construídas na época inicial do Projeto Chagas, durante os anos 1980. João Batista, o esposo, foi pedreiro delas. Com quase 70 anos, ele não fez sorologia e nem pretende fazer. "Não vou a uma altura dessa querer descobrir doença em mim. Pra não ficar com aquela preocupação".

Diário do Nordeste

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