O censo da floresta contra a extinção

Por Ipu Online — publicado | 3.12.18 | 0 comentários


Nos últimos nove anos, pelo menos 840 filhotes de periquitos cara-suja (Pyrrhura griseipectus) nasceram e voaram dos ninhos artificiais montados pela ONG Aquasis nas matas de Baturité, Quixadá e Ibaretama. Segundo o biólogo Fabio Nunes, um alento para o trabalho de repovoamento da espécie que, em 2017, saiu da categoria de "criticamente" ameaçada de extinção para o status de "em perigo" de desaparecer das florestas do Ceará.

Cento e vinte pessoas, entre biólogos e observadores de pássaros, foram a campo no último final de semana para mapear o tamanho da população da ave numa área de 30 km quadrados entre os municípios de Guaramiranga e Pacoti. O levantamento faz parte do II Censo Anual do Periquito Cara-Suja, realizado com apoio da Fundação Boticário, da Universidade Estadual do Ceará (Uece) e da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab).

A reversão do declínio populacional desse tipo de periquito vem sendo estudada desde 2007 quando pesquisadores da Aquasis passaram a esquadrinhar as causas do desaparecimento da ave.

O periquito cara-suja, explica Fábio Nunes, é um animal exclusivamente nordestino que já habitou muitos estados da região e atualmente ocorre apenas em três pontos do Ceará. A destruição das florestas, notadamente dos ecossistemas serranos, e a captura das aves para o tráfico contribuíram para a redução drástica dos bandos.


Em 2017, o primeiro censo estimou a existência de 384 periquitos, sendo 314 indivíduos na serra de Baturité, 62 na Serra do Mel (Quixadá) e 8 na Serra Azul (Ibaretama). "O número de cara-sujas é maior do que 314, mas foi o que contamos. É o valor mínimo. Provavelmente, o número esteja entre 600 e 800 indivíduos. Mas isso é uma apenas estimativa", observa Fábio Nunes.

De acordo com o biólogo, o relevante para a pesquisa é manter uma série de contagens para produzir parâmetros comparativos e assim poder entender a tendência populacional da espécie.

Fábio Nunes explica que o censo é um momento para analisar o impacto do projeto de intervenção conservacionista, medindo o crescimento ou decréscimo populacional. "Quando iniciamos é possível que existissem menos de 100 indivíduos na serra de Baturité. A espécie era muito rara e muito capturada", lembra.

O pesquisador descreve que o desmatamento, as queimadas e a ação de traficantes reduziram os locais para reprodução do periquito. Com isso, as aves passaram a utilizar lugares inadequados como ninhos vulneráveis e apertados. Os caras-sujas costumam fazer ninhos em ocos de árvores. Porém, como não são capazes de escavar a madeira, aproveitam buracos deixados por pica-paus.

Com o projeto desenvolvido pela Aquasis, a partir de 2009, foram instaladas caixas-ninhos para servir de berçários. Hoje já são mais de 50 instaladas na serra de Baturité. A reprodução ocorre uma vez ao ano, de fevereiro a junho, quando as fêmeas botam em média seis ovos.

"No início, passávamos dias sem ver os cara-sujas em Baturité. Hoje, a realidade é bem diferente, conseguimos reverter uma situação de declínio populacional para um aumento expressivo", comemora o pesquisador. O resultado do censo sairá esta semana.

PESQUISA
Saber do tamanho populacional e suas tendências são importantes critérios de avaliação do status de conservação de uma espécie, de acordo com a União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN).

DADOS
O resultado do censo pode demonstrar como a espécie responde às intervenções humanas e a algumas variáveis, como capacidade do ecossistema, condições genéticas e impactos ambientais.

ESPÉCIE
O periquito cara-suja é uma espécie social que vive em bandos familiares de aproximada- mente 4 a 15 indivíduos. Eles medem de 22 a 28 cm e pesam em média 58 gramas.

Visitação
O periquito cara-suja também é conhecido por tiriba-de-peito-cinza. Em Guaramiranga há um Centro de pesquisa sobre a espécie.

O Povo




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