Apaixonada por animais, professora é encontrada abraçada à cachorrinha em meio à lama de Brumadinho

Por redação Ipu Online, publicado em | 7.2.19 | 0 comentários


“Além de trabalhar pelas pessoas, ela amava os animais. Em casa tínhamos araras, cães, marrecos, pavões… um bezerro. Todos ficavam soltos. Para ela, eram como filhos”, lembra o engenheiro geólogo Edson Albanez, marido da professora e secretária de Desenvolvimento Social de Brumadinho, Sirlei Brito Ribeiro. E foi justamente por causa desse amor pelos animais que Sirlei, provavelmente, abandonou a caminhonete para salvar uma cachorrinha, a Bibi. A professora é um dos 134 mortos da tragédia da Vale, que ainda é responsável por 199 desaparecidos.

O Corpo de Bombeiros acredita, pelo cenário encontrado, que Sirlei já estava dentro da caminhonete da família, quando decidiu voltar para resgatar a Bibi, uma Lhasa Apso de nove anos. A posição em que a chave do carro estava indica que ele foi deixado ligado. Não houve tempo. A professora acabou sendo localizada já sem vida, em meio à lama, abraçada à cachorrinha. Os demais bichos da família conseguiram fugir, inclusive a outra cadela, Lisbela, uma rottweiler de dois anos. Eles estão em abrigos, montados em Brumadinho, especialmente para acolher animais afetados pela tragédia.


No momento em que a barragem se rompeu, Sirlei estava em casa com uma funcionária e com o jardineiro que trabalhava há uma década com a família. Ele contou aos bombeiros que ela perguntou que barulho era aquele, após o estrondo do rompimento da barragem. Percebendo que era algo grande, o jardineiro relata que saiu correndo, gritando para elas fugirem também. A funcionária doméstica estava dentro da casa e também correu gritando para Sirlei fugir com ela. A professora ficou e não foi mais vista viva. A equipe de resgate acredita que ela chegou até a caminhonete, mas voltou para salvar o animalzinho.

Arquivo pessoal

O marido, Edson, havia saído para uma reunião de trabalho em Belo Horizonte. Ele convidou a esposa, já que ela estava de férias, mas Sirlei decidiu ficar. “Parece que fui rejeitado por Deus. Saí às 11h para uma reunião às 12h. Reuniões são comuns às 10h, em outros horários, mas na hora do almoço, não. Eu fui tirado de lá. Sinto como se Ele tivesse dito pra mim ‘você ainda tem que ficar aí, tem muito a fazer. Ela já está com o exercício de vida resolvido'”, afirma ao BHAZ. “E eu acredito nisso pela pessoa especial, generosa que ela sempre foi. É uma solidão imensa, uma dor profunda por ficar sem ela. Mas eu agradeço pela oportunidade de amá-la”.

Sirlei era muito querida onde morava. O marido conta que ela sempre trabalhou em prol da comunidade. “A Sirlei criou a associação comunitária, construiu um centro comunitário, trabalhou para a instalação de poste de iluminação, era advogada e fazia trabalhos sem cobrar. Todo mundo a conhecia. Resolvia tudo o que podia. Queria salvar o mundo ao redor dela”.

Arquivo pessoal
Sirlei tinha 48 anos, dos quais 13 anos vividos com Edson. Ele morava na casa há 27 anos, e ela se mudou para o local quando se casaram. Edson pretende adotar outro estilo de vida e seguir no ativismo social ao qual a esposa se dedicava. “Tudo o que eu construí em 40 anos de trabalho eu perdi. Tinha uma casa super luxuosa. Gastei uma fortuna na construção e nos artigos dentro dela. Fiquei com a roupa do corpo. Essas coisas todas não têm o menor significado. Vou viver uma vida simples, servindo às pessoas. Eu recebo uma mensagem que é pra eu começar de novo de outra forma”.

BHAZ




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