Morte de músico em operação militar no Rio gera comoção e repúdio

Por redação Ipu Online | publicado | 9.4.19 | 0 comentários


O Exército decretou, nesta segunda, a prisão de 10 militares que, na véspera, dispararam mais de 80 tiros contra um veículo no bairro de Guadalupe, na zona norte do Rio de Janeiro, matando o motorista e ferindo duas pessoas. Evaldo dos Santos Rosa, de 51 anos, que era segurança de uma creche e músico em um grupo de pagode, dirigia o carro fuzilado pelos militares e no qual também estavam sua esposa, o filho de 7 anos, a afilhada do casal, de 13, e o sogro dele – baleado nos glúteos e que está internado em um hospital. Um pedestre que tentou ajudar as vítimas também foi atingido pelos tiros.

O incidente ocorreu no perímetro de segurança de uma área militar onde o efetivo realizava uma “patrulha regular”, informou o Exército. Por meio de nota, emitida logo após o crime na tarde de domingo, o Comando Militar do Leste (CML) disse que os militares revidaram a uma “injusta agressão” de criminosos a bordo do veículo. Mas ontem, em um segundo comunicado, o órgão informou que dez dos doze militares que participaram da operação foram presos em flagrante por “inconsistência dos fatos reportados”.

Luciana dos Santos Nogueira, mulher de Edvaldo dos Santos Rosa,comparece ao Instituto Médico Legal (IML) para liberar o corpo -Tânia Rêgo/Agência Brasil
Família
A viúva de Evaldo afirma que depois do primeiro tiro pediu ajuda aos soldados, mas eles continuaram disparando. “Por que o quartel fez isso? Os vizinhos vieram para nos socorrer mas eles continuaram disparando. Pedi a um deles: ‘Ajuda meu marido!’. Não fizeram nada, ficaram debochando”, afirmou Luciana Nogueira. Em entrevista à TV Globo, na noite de domingo, o delegado Leonardo Salgado, da Divisão de Homicídios, disse que “tudo indica” que os militares do Exército atiraram ao confundirem o carro com o de assaltantes na região.

“Foram diversos, diversos disparos de arma de fogo efetuados, e tudo indica que os militares realmente confundiram o carro com um veículo de bandidos. Mas neste veículo estava uma família. Não foi encontrada nenhuma arma. Tudo o que foi apurado é que realmente era uma família normal, de bem, que acabou sendo vítima dos militares”, afirmou o delegado.

Investigação
A Polícia Civil realizou uma perícia no local, mas a investigação está agora a cargo da Justiça Militar, tal como estabelece uma lei aprovada em 2017.  Os militares participaram nos últimos anos de operações contra a criminalidade no Rio, estiveram inclusive entre fevereiro e dezembro de 2018 à frente do comando da Segurança no Estado.

A ONG Rio de Paz manifestou “repúdio” à ação dos militares detidos e exigiu uma manifestação da Presidência, a quem as Forças Armadas respondem em última instância. “Apesar de todos os bons serviços prestados pelas Forças Armadas na patrulha ostensiva no Estado do Rio, a ONG Rio de Paz pede que toda a sociedade exija as autoridades, principalmente as que estão sob ordens do Ministério da Defesa, todo o rigor na investigação dos fatos”.

Autoridades
Nesta segunda, o porta-voz da Presidência, Otávio do Rêgo Barros, disse que o presidente confia na Justiça Militar. O governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, que prometeu ao assumir o cargo, em janeiro passado, aplicar uma política dura contra crime, em um discurso sintonizado com o de Bolsonaro, não se manifestou.

Witzel defendeu recentemente que a Polícia tenha atuação contundente e letal contra criminosos que portem armas de guerra, além do uso de atiradores de elite (snipers) em operações policiais.

Diário do Nordeste

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