Complexo arqueológico de grandes proporções é descoberto na Amazônia Central

Por redação Ipu Online | publicado | 11.9.19 | 0 comentários


RIO — Um complexo arqueológico de grandes proporções foi encontrado na região da Amazônia Central por pesquisadores do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá (IDSM) e do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa).

Alguns dos elementos descobertos, muitos inéditos dentro da região do Médio Solimões, indicam que a ocupação da Floresta Amazônica antes da chegada dos colonos portugueses, em 1500, pode ter sido muito maior do que se imagina. 

O trabalho começou no que os arqueólogos imaginavam se tratar de um sítio arqueológico, que logo se revelou um complexo interconectado na região de comunidades tradicionais. Além de cerâmicas e urnas funerárias, foram encontradas sementes carbonizadas de vários vegetais, incluindo açaí e cupuaçu. A frente arqueobotânica também identificou um castanhal que, possivelmente, foi plantado por populações antigas há 500 ou 600 anos. 

— Esse castanhal só vai até 500 metros de distância da beira do rio. Dá para identificar esse trabalho humano do passado para construir e manter — explica Rafael Lopes, arqueólogo e pesquisador associado do IDSM. — Essas comunidades antigas tinham práticas que produziram o solo de terra preta, como o descarte de lixo, alimentação orgânico e alimentação feita em áreas de quintal que, acumuladas, geraram essa terra muito fértil.

Mariana Cassino, pesquisadora de arqueobotânica do Inpa, chama atenção para as particularidades da cultura do castanhal, que comprovam a intervenção humana no complexo arqueológico avaliado.

Peça arqueológica encontrada no complexo na região do Médio Solimões Fotos: Bernardo Oliveira
 — Tudo indica que é uma floresta cultural, que foi sendo enriquecida e construída ao longo dos anos de ocupação da área pelas pessoas que viveram ali. Até mesmo o solo que tem indícios de transformação humana — afirma Mariana. — A castanheira é um exemplo interessante porque depende de luz para se reproduzir. Para ter novas castanheiras, você depende do empenho humano. Estão constantemente limpando, tirando cipós. Esse manejo é fundamental para a manutenção da Amazônia que temos hoje. Sem isso, ela não seria a mesma.

Ainda segundo Rafael, alguns materiais encontrados têm entre dois mil e três mil anos de idade. Os números precisos devem ser definidos até o final do ano. O material será analisado pelo IDSM e o Inpa, em parceria com a Universidade de São Paulo (USP). As cerâmicas mais antigas, pondera o arqueólogo, indicam que essas regiões são povoadas há milênios. 

Outras intervenções humanas também foram identificadas. Os pesquisadores acreditam ter encontrado uma região que foi propositalmente planificada, possivelmente por se localizar em um terreno alagadiço, processo chamado de plataforma. No alto do monte de terra ficaram localizadas as casas das populações antigas. Estima-se que, até a chegada dos portugueses, cerca de 10 milhões de pessoas viviam na Amazônia, patamar que só voltou a ser atingido no século XX após conflitos e pragas. 

— A crença que a ecologia tinha até os anos 80 pelo menos era essa floresta intocada. O que estamos percebendo é que as populações humanas tiveram bastante responsabilidade na forma que a floresta consiste hoje — avalia Lopes. — Essas populações ribeirinhas que vivem lá hoje têm um modo de vida muito parecido com o das comunidades indígenas. Eles assumiram e adicionaram a esse legado, e dão lições sobre outras formas de ocupar e viver na Amazônia.

Mariana faz análise semelhante: 
— Essas populações são fundamentais para a conservação da floresta. Nossa sociedade tende a separar a natureza e a cultura, mas as populações indígenas da Amazônia não fazem essa separação. Tendo em vista essa história de longa duração da Amazônia, de íntima ligação entre pessoas e florestas, é fundamental para pensarmos o modelo da Amazônia hoje. O modelo desenvolvimentista que está querendo ser imposto definitivamente não cabe.

Indícios estão também na literatura 
Lopes lembra que, na literatura, há registros de cronistas dos séculos XVI e XVII que foram encarados muito tempo como folclóricos por historiadores.  

— Se você verificar as crônicas de viajantes que desceram o Rio Amazonas e relataram o que foram vendo escritas do século XVI, por exemplo, até a metade do século XVII, todos mencionam aldeias gigantescas, que eram vistas em sequência durante quatro horas de viagem, com apenas meia hora de intervalo entre elas. Obviamente existem exageros, mas as descrições tratam de uma quantidade gigantesca de pessoas — Recorda o arqueólogo. 

A mudança de panorama e a ideia de um bioma completamente inexplorado muda de figura após a intervenção dos portugueses na região amazônica.

— A partir do século XVII, quando a Amazônia foi tomada pelos portugueses e o processo de colonização começou, você tem escravização, guerras de vingança e epidemias vão se espalhando até se tornarem um fator preponderante das mortes dessas populações — lembra Lopes. — A expansão colonial na Amazônia continua no século XVIII, XIX e até mesmo XX e diminui a população indígena, e a floresta tomou o lugar. Os viajantes do século XIX falam que não tem ninguém, que não foi explorada, e vão gerando perspectivas que hoje, através da arqueologia, conseguimos mostrar que são mitos.

A arqueologia amazônica, tão pouco explorada quanto os cronistas do século XVIII julgavam ser a floresta, tem como desafio a vastidão do território do bioma. Há outros complexos arqueológicos de enormes proporções na região de Santarém, da Ilha de Marajó, Manaus e, mais recentemente, no Amapá, próximo à capital do Amapá. O arqueólogo avalia que há muito a ser descoberto, mas os cortes na pesquisa científica brasileira podem ameaçar o trabalho. 

— Existem pelo menos desde os anos 50 estudos sistemáticos da arqueologia amazônica, mas só começamos a descobrir esses sítios de grandes dimensões e a ter acesso a novos tipos de análise recentemente na região. Isso transformou a forma como vemos a floresta — diz o pesquisador. — É uma coisa que demanda trabalho, dinheiro, e a pesquisa está sendo boicotada (no Brasil). Fizemos nosso trabalho com bolsas de pesquisa.

 Unidade de escavação no complexo arqueológico Fotos: Bernardo Oliveira /  

O Globo

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