Dia do músico: luthier conserta instrumentos de sopro há 30 anos em Florianópolis e mantém trabalho manual ensinando filho

Por redação Ipu Online » publicado | 22.11.19 | 0 comentários

Residência com jardim de flores e instrumentos marca presença de oficina de lutheria na área continental. 'É uma paixão', garante o profissional.

Adevilson e o filho no jardim de casa com instrumentos pintados de branco — Foto: Adevilson Cerqueira/Arquivo pessoal
Rosas, azaleias, orquídeas, palmeiras, grama bem aparada, samambaia, tuba, saxofone, clarinete, sax-horn, trompete e lira. O jardim de uma das residências na Rua dos Navegantes, no bairro Estreito, em Florianópolis, virou ponto de referência na região continental da Capital por integrar plantas com instrumentos musicais e marca a presença da única oficina de lutheria de instrumentos de sopro do município. Há mais de 30 anos o músico aposentado do Exército Adevilson Cerqueira conserta instrumentos e agora ensina o trabalho manual ao filho. No dia do músico, ele compartilhou um pouco da rotina da profissão com o G1.

“Tenho amigos que trazem os instrumentos para consertar e aproveitam para conversar, principalmente sobre música", afirmou o luthier Adevilson, de 55 anos, e que na adolescência começou os primeiros passos na lutheria.

"Tenho muito carinhos pelos instrumentos. Faço o máximo para atender a expectativa do músico. Quero ver o músico tocando e, se depender de mim, nenhum instrumento fica estragado”.

Por dia, ele conserta em média dez instrumentos e calcula que mais de 100 mil instrumentos de sopro já passaram por suas mãos. “Passou uma geração pela minha mão: os pais vieram comprar instrumentos para aprender e agora trazem os filhos para comprar instrumentos para aprenderem a tocar. A música é universal. Acho que todos deveriam aprender: faz bem para a alma, ao espirito, para saúde física e mental”, recomendou.

“Dia desses em um festival encontrei uma flautista que comprou a primeira flauta transversal comigo, para aprender, hoje ela é professora. A gente se sente muito orgulhoso, fica emocionado e vê que o tempo passou muito”, declarou.

Cada instrumentos carrega uma história
Os instrumentos que não tinham mais jeito ganharam destaque em seu jardim a partir de 2002. “Pintei um clarinete sem uso de branco e coloquei no jardim. Todos diziam: 'que legal'. Então pensei que se colocasse mais instrumentos seria mais legal ainda. Tem dez instrumentos. Agora quero colocar um bumbo e uma caixa [instrumentos de percussão]”, disse.

Oficina: 'uma grande orquestra'
Porém, é sua oficina, em frente à casa que mora com a família, onde se dedica aos detalhes, na troca de sapatilhas, sanando vazamentos que impedem o som de sair dos instrumentos, ajeitando amassados.

Como em uma grande orquestra em silêncio, clarinetes, trompetes, flautas, trompas, tubas, clarones e saxofones se dividem por toda a parte. Alguns ficam pendurados, outros dividem, ficam armazenados em prateleiras, outros estão pelo chão.
Adevilson e o filho no jardim na oficina de instrumentos musicais — Foto: Adevilson Cerqueira/Arquivo pessoal
São instrumentos diversos levados por músicos de sopro principalmente da Grande Florianópolis para conserto e venda. Alguns músicos de outros estados gostam tanto do trabalho dele que encaminham os instrumentos pelos Correios ou viajam até Florianópolis para fazer os reparos.

Alguns instrumentos chegam tão danificados ao luthier que ficam ali para servir as peças a outro instrumento. Quem visita a oficina sempre ouve alguma história ao ser aguçado pela curiosidade de ver alguns tão danificados.

“Cada instrumento tem uma história. Tenho aqui trompete, saxofone amassados em brigas amorosas. Tem um que chegou todo retorcido, não tinha mais jeito, de uma briga de família. O tio bebeu e, na briga com o sobrinho, jogou o instrumento no chão e pisou em cima. Tem um uma vez que nem peguei, não tinha o que fazer: esqueceram o bombardino atrás de um ônibus. O motorista deu ré e amassou o instrumento todo”, relembrou.

“Todo aparelho que temos em casa tem um mecanismo protegido por uma caixa. O instrumento é ao contrário, o mecanismo está por fora e é muito sensível, exige muito cuidado. Qualquer deslize, bateu, derrubou, é muito fácil estragar. Sempre digo que atrás de todo músico tem um luthier”, diz Advilson.

Apesar de ser tubista profissional, Adevilson precisou aprender a tocar um pouquinho de cada instrumento para conhecer melhor e garantir mais precisão nos ajustes. “Eu toco tuba e os outros eu tiro som, arranho para testar: flauta, flautim, clarinete, clarone, trompete, sax soprano, sax alto, sax tenor, sax barítono, oboé, fagote, trompete, trompete pocketflugelhorn, trombone, trompa, bombardino, sousafone, tuba”, enumerou.

A singularidade do trabalho é tamanha que até profissionais de outros ramos passaram a procurá-lo. “Como trabalho com muito tipos de solda, empresas de decoração trazem trabalhos, conserto e soldo objetos de decoração”.

Tradição de família
Aos 12 anos, Adevilson aprendeu a tocar o primeiro instrumento, trompa sax-horn, com um tio em Ponta Grossa (PR). Um ano depois, começou a estudar o instrumento que garantiria sua profissão de músico de banda militar: o sousafone. Foi com o tio também que iniciou o gosto pela manutenção e conserto de instrumentos.

Adevilson e o filho no jardim na oficina de instrumentos musicais — Foto: Adevilson Cerqueira/Arquivo pessoal
“Ele era maestro de uma banda civil e tinha uma pequena oficina de manutenção de instrumentos e me dava uns trocadinhos para eu ajudar com os serviços bem simples, limpeza de instrumentos”, explicou.

Quando foi promovido a sargento no Exército, foi transferido para Florianópolis, onde começou a ampliar e se arriscar mais na lutheria. Aos poucos, iniciou a oficina, que começou pequena no quarto vazio da primeira casa, passou pela garagem da segunda e teve lugar especial na propriedade onde vive com a família atualmente.

“Vi a necessidade, que as pessoas não tinham onde arrumar os instrumentos, às vezes deixavam de tocar porque não tinham como arrumar. Aí fui aprendendo, fazendo cursos. Em Curitiba, tinha um luthier que me ajudou e ensinou bastante. No início os instrumentos sem conserto eu comprava para usar as peças em outros, era muito difícil conseguir peças há 30 anos, e ferramentas também. As minhas ferramentas eu mesmo que bolei e fiz porque não encontrava para comprar. Hoje com a internet é bem mais fácil comprar peças, ferramentas”, relatou.

Mesmo já sendo referência no país em lutheria de sopro, Adevilson segue se aperfeiçoando. “Continuo participando de cursos, oficinas, seminários internacionais. Ano passado fui em um seminário na Colômbia, ano que vem vou no Chile. É oportunidade de aprender mais coisas, novas técnicas, materiais para usar”.

Laços de família
A tradição promete continuar na família Cerqueira. Há dois anos, o filho dele, Adevilson Cerqueira Júnior, de 29 anos, começou a trabalhar com o pai na luteria.

“Comecei mais para ter algo para fazer e agora estou tomando gosto, estou buscando cursos e quero aprender a tocar também. É gratificante ver o instrumento pronto. Fico feliz, uma por trabalhar com meu pai e outra por dar continuidade a uma profissão rara”, afirma Júnior.

“A luteria é uma paixão, é uma arte e é maravilhoso trabalhar junto com o filho na oficina que é uma extensão da minha casa. Agora tenho um netinho de oito meses e vou ensinar para ele também”, brincou o luthier.

G1 SC


Arquivado em: ,

0 comentários

Os comentários abaixo não representam a opinião do Portal Ipu Online; a responsabilidade é do autor da mensagem.