Arqueóloga desvenda o significado das gigantes estátuas Moai

Por redação Ipu Online » publicado | 18.12.19 | 0 comentários

O povo rapanui provavelmente acreditava que as estátuas, chamadas Moais, ajudavam na fertilidade do solo e na agricultura da ilha, segundo novo estudo

© AP Photo / Karen Schwartz
A ilha Rapa Nui (ou Ilha de Páscoa, como é mais conhecida) é lar dos enigmáticos Moais, estátuas de pedra que vigiam o ambiente da ilha há centenas de anos. Sua existência é uma maravilha fruto da engenhosidade humana — e o significado por trás de sua construção ainda é uma fonte de mistério.

Os antigos escultores rapanuis trabalharam para esculpir quase 1.000 Moais sob ordens da  elite dominante da época porque eles, assim como a comunidade em geral, acreditavam que as estátuas eram capazes de induzir a fertilidade na agricultura e, portanto, suprimentos essenciais para alimentação. É o que concluiu um novo estudo liderado por Jo Anne Van Tilburg, diretora do Projeto Estátuas da Ilha de Páscoa, publicado recentemente na revista Journal of Archaeological Science.

Van Tilburg e sua equipe, que inclui a geoarqueóloga e especialista em solos Sarah Sherwood, acreditam ter encontrado evidências científicas para essa explicação, que já havia sido proposta antes, graças ao estudo cuidadoso de dois Moais escavados por cinco anos na pedreira de Rano Raraku, no lado leste da ilha polinésia.

Moais na Ilha de Páscoa - Getty Images
A análise mais recente de Van Tilburg se concentrou em duas das estátuas situadas na região interna da pedreira de Rano Raraku, que é a origem de 95% dos mais de 1.000 Moais presentes na ilha. Testes laboratoriais com amostras do solo da mesma área mostram evidências da presença de alimentos como banana, inhame e batata-doce.

Van Tilburg explica que a análise mostrou que, além de servir como pedreira e local de escultura de estátuas, a região de Rano Raraku também era uma área agrícola produtiva.

“Essa escavação amplia nossa perspectiva sobre os Moais e nos encoraja a perceber que nada, por mais óbvio que seja, é exatamente o que parece. Acho que nossa nova análise humaniza o processo de produção dos Moais”, diz Van Tilburg.

Van Tilburg trabalha na ilha Rapa Nui há mais de três décadas. Seu Projeto Estátuas da Ilha de Páscoa é apoiado em parte pelo Instituto Cotsen de Arqueologia da Universidade da Califórnia em Los Angeles. Tom Wake, seu colega do Instituto Cotsen, analisa restos de pequenos animais do local da escavação.

A pesquisadora, em parceria com membros da comunidade local, lidera as primeiras escavações legalmente permitidas de Moais em Rano Raraku desde 1955. Cristián Arévalo Pakarati, um conhecido artista rapanui, é codiretor do projeto.
Moai escavados por Jo Anne Van Tilburg na pedreira de Rano Raraku, Ilha de Páscoa / Crédito: Jessica Wolf/Universidade da Califórnia, Los Angeles
Os solos em Rano Raraku são provavelmente os mais ricos de toda a ilha, certamente a longo prazo, diz Sherwood. Juntamente com uma fonte de água doce na pedreira, parece que a própria prática de extração da pedreira ajudou a aumentar a fertilidade do solo e a produção de alimentos nas imediações, diz ela. Os solos da pedreira são ricos em argila criada pelo desgaste da lapilli tuff (a rocha local) enquanto os trabalhadores extraíam as rochas mais profundas e esculpiam os Moais.

Sarah Sherwood é professora de sistemas terrestres e ambientais da Universidade do Sul em Sewanee, Tennessee, e ingressou no Projeto Ilha da Páscoa após conhecer outro membro da equipe de Van Tilburg em uma conferência de geologia.

Ela não estava originalmente pesquisando a fertilidade do solo, mas, por curiosidade e hábito de pesquisa, fez alguns testes em grande escala de amostras trazidas da pedreira.

“Quando recebemos os resultados químicos, tive que checar duas vezes”, diz Sherwood. “Havia níveis muito altos de coisas que eu nunca imaginaria que estariam lá, como cálcio e fósforo. A química do solo mostrou altos níveis de elementos essenciais para o crescimento de plantas e essenciais para altos rendimentos agrícolas. Em qualquer outro lugar da ilha o solo estava sendo rapidamente desgastado, corroído, sendo drenado dos elementos que alimentam as plantas, mas, na pedreira, com seu constante influxo de novos pequenos fragmentos da rocha gerada pelo processo de extração, existe um sistema perfeito de água, fertilizantes naturais e nutrientes.”

Ela diz que também parece que os antigos povos indígenas de Rapanui eram muito intuitivos sobre o que cultivar — plantando várias culturas na mesma área, o que pode ajudar a manter a fertilidade do solo.

Os Moais que a equipe escavou foram descobertos na posição vertical, um em um pedestal e o outro em um buraco profundo, o que indica que eles foram feitos para permanecer lá.

Arte rupestre encontrada durante a escavação / Crédito: Jessica Wolf/
Universidade da Califórnia, Los Angeles
“Este estudo altera radicalmente a ideia de que todas as estátuas em pé de Rano Raraku estavam simplesmente aguardando transporte para fora da pedreira”, diz Van Tilburg. “Isto é, estes e provavelmente outros Moais na posição vertical em Rano Raraku foram mantidos no local para garantir a natureza sagrada da própria pedreira. Os Moais eram essenciais para a ideia de fertilidade, e, na crença dos rapanuis, a presença deles no local estimulava a produção de alimentos agrícolas”.

Van Tilburg e sua equipe estimam que as estátuas foram feitas cerca de, ou mesmo antes, 1510 d.C a 1645 d.C. Atividades nesta parte da pedreira provavelmente começaram em 1455 d.C. A maior parte da produção de Moais havia cessado no início dos anos 1700 devido ao contato com o Ocidente.

As duas estátuas escavadas pela equipe estavam quase completamente enterradas pelo solo e por entulhos.

“Escolhemos essas estátuas para escavação com base em exames minuciosos de fotografias históricas e mapeamos toda a região interna de Rano Raraku antes de iniciar as escavações”, diz Van Tilburg.

A pesquisadora trabalhou duro para estabelecer conexões com a comunidade local de Rapa Nui. As equipes de campo e laboratório do projeto são compostas por trabalhadores locais, orientados por arqueólogos e geólogos profissionais.

O resultado de seus esforços coletivos é um enorme arquivo detalhado e um banco de dados comparativo que documenta mais de 1.000 objetos esculturais em Rapa Nui, incluindo os Moais, bem como registros semelhantes em mais de 200 objetos espalhados por museus em todo o mundo. Em 1995, a UNESCO nomeou a Ilha de Páscoa como Patrimônio Mundial, com a maioria dos locais sagrados da ilha protegidos dentro do Parque Nacional Rapa Nui.

Este é o primeiro estudo definitivo a revelar a pedreira como uma paisagem complexa e a fazer uma afirmação definitiva que vincula a fertilidade do solo, a agricultura, a pedreira e a natureza sagrada dos Moais.

SCIAM AMERICAN  Brasil /Universidade da Califórnia em Los Angeles


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