Quase 9 mil crianças e adolescentes trabalham no contraturno escolar no Ceará

Por redação Ipu Online » publicado em | 7.2.20 | 0 comentários

A maioria dos entrevistados têm entre 9 e 13 anos. Pesquisa foi realizada em 2019 com 418 escolas, onde foram ouvidos mais de 217 mil estudantes da rede pública.

Operação flagra trabalho infantil em cemitérios do Ceará durante Feriado de Finados, em 2017 — Foto: TV Verdes Mares/Reprodução
Em 70 municípios cearenses, quase 9 mil crianças e adolescentes trabalham no contra turno escolar, sendo a maioria de 9 a 13 anos de idade. Os dados são de um levantamento do Ministério Público do Trabalho no Ceará (MPT-CE), apresentado na manhã desta sexta-feira (7).

A pesquisa foi realizada em 2019 com 418 escolas, onde foram ouvidos mais de 217 mil estudantes da rede pública, com idades entre 9 e 17 anos. Dos 8.978 jovens em situação de trabalho infantil, 1.860 estavam envolvidos em atividades de agricultura.

Em segundo lugar aparece o trabalho em comércios com 1.246, seguido do trabalho doméstico com 1.153, sendo 589 na função de babá. Logo depois o de serviços com 876, pecuária com 767 e indústria com 167.

Juazeiro do Norte
Juazeiro do Norte foi a cidade do Estado com maior número absoluto de alunos em situação de trabalho totalizando 558. Porém, os maiores percentuais, números relativos, de crianças e adolescentes em situação de trabalho, de acordo com a pesquisa, foram verificados nas cidades de Ipaporanga (18,68%), Barreira (18,52%), Campos Sales (16,65%), Ibiapina (14,46%), Hidrolândia (12,38%) e São Benedito (11,59%).

Atividades domésticas
Quanto a afazeres domésticos, 35% dos entrevistados, cerca de 75 mil pessoas em todo o Ceará informaram realizar atividades em casa, em colaboração com os demais membros da família, porém, outros 16.383 alunos (7,5%) informaram que cuidam da casa e dos irmão mais novos, isto é, assumem responsabilidade de adultos. De acordo com o levantamento, a primeira hipótese não é considerada trabalho precoce, porém, na segunda situação caracteriza o trabalho infantil doméstico (realizado no próprio domicílio).

Em Fortaleza, a pesquisa ouviu 10.424 alunos de 10 escolas do Distrito de Educação V. Desde total, 855 estavam ocupados em atividades diversas. Outros 1.425 disseram trabalhar no próprio domicílio, cuidando da casa e dos irmão, assumindo tarefas de adultos.

Já 3.646 estudantes informaram que realizam afazeres domésticos em colaboração com os demais membros da família, isto é, apenas ajudando. Dentre os que trabalham em atividades econômicas ou de sobrevivência, não relacionadas aos afazeres domésticos, as atividades mais citadas foram: empregado doméstico, inclusive como babá (75), comércio (47) e restaurante/pizzaria (26).

O estudo mostra também que Maracanaú e Fortaleza foram os municípios que apresentaram mais crianças e adolescentes cuidando da casa e dos irmãos mais novos (1.561 e 1.425 registros, respectivamente). Entretanto, os dados de Fortaleza se referem a apenas 20 escolas do Distrito de Educação V.

Combate ao trabalho infantil
O estudante de direito, Felipe Caetano, estava presente no momento da divulgação dos dados sobre o trabalho infantil. Felipe conta que foi vítima do trabalho infantil em uma barraca de praia onde trabalhava como garçom. Ele próprio foi procurar o Ministério Público do Trabalho na época quando tinha 14 anos para ter esclarecimentos sobre o trabalho infantil.

“Eu procurei o doutor Antônio [do Ministério Público do Trabalho (MPT)] em 2015 e eu ainda estava no período de transição da saída do trabalho infantil. Eu comecei a trabalhar com oito anos de idade em barraca de praia como garçom e aí eu não percebia que aquilo se tratava de trabalho infantil. E depois de uma palestra sobre a temática trabalho infantil deu um toque e pensei: poxa eu estou em situação de trabalho infantil”, relata.

Felipe conta que após participar de palestras se interessou pelo assunto e anos mais tarde organizou o 1º Encontro Cearense de Adolescentes com Trabalho Infantil assistido de perto pelo MPT. Evento reuniu vários jovens de todo o Ceará.

“A gente convidou adolescentes de mais de 100 municípios aqui do Estado do Ceará com mais de 500 participantes. Então foi aí que a gente deu essa luta e hoje nós estamos em mais de 16 estados. E temos um Comitê Nacional que representa todo o Brasil e a gente envolve jovens através de audiências públicas, de campanhas, denúncias, para combater o trabalho infantil”.

O procurador Antônio de Oliveira Lima, do MPT-CE, ressalta a importância do estudo para que o órgão abrace de uma maneira mais competente crianças e adolescentes que estejam em condições de trabalho infantil.

“Por isso que os dados da pesquisa são importantes. Porque a partir desta pesquisa, facilita o trabalho de visita as famílias dessas crianças e adolescentes que estão em situação de trabalho. A partir daí vamos colocá-los em programas sociais e acompanhamento educacional prioritário. Vamos conhecer e proteger e é essa nossa meta neste ano”.

G1 CE


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